1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2025:Queridos amigos,
Temos agora as consequências sociopolíticas e militares das deliberações do Congresso de Cassacá, dá-se formalmente a rotura na relação entre Maria Helena e Amílcar Cabral, entretanto num encontro em Praga, Amílcar e Ana Maria Voss perdem-se de amores, o ativismo de Cabral é imparável e em janeiro de 1966 terá a sua consagração após uma intervenção que deixou muita gente atónita na Tricontinental de Havana.
Um abraço do
Mário
O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 5
Mário Beja Santos
Em consequência das decisões tomadas no Congresso de Cassacá, dar-se-á a reorganização militar que levou à constituição das primeiras unidades do Exército Popular, as FARP. Uma reorganização que não esqueceu praxes institucionais como o juramento diante da bandeira do PAIGC.
Amores finados com Maria Helena, em 1965, na cidade de Praga, Cabral conhece Ana Maria Voss, dá-se rapidamente o coup de foudre, será a sua segunda mulher que assistirá na noite de 20 de janeiro de 1973 ao assassinato do marido.
O autor chama a atenção para a propaganda bombástica e falseada de que Cabral não tinha pejo em manipular, veja-se a linguagem usada para cantar vitória sobre os acontecimentos da ilha do Como:
Igualmente o autor recorda a preocupação de Cabral com a imagem do partido no exterior, convites a figuras gradas ao movimento revolucionário, como foi o caso de Gérard Chaliand (1934-2025) e também cineastas como Mario Marret.
Dentro das recriações que a trama romanesca permite, Alvarez pretende fazer sobressair um estado de ciúme de Sékou Touré, este considera que Cabral estava a roubar-lhe protagonismo, quer que os seus Serviços Secretos o tenham debaixo de olho. No secretariado do PAIGC, vemos Cabral a tecer considerações altamente críticas ao mau trabalho da Organização da Unidade Africana (OUA), reconhecendo a contradição que a guerra o obrigava a atacar lojas e a deitar por terra a economia guineense, o que iria levar, depois da Independência, a precisar de auxílio externo. Punha, no entanto, uma grande esperança nos Armazéns do Povo.
Esse ano de 1965 é pleno de atividade: a preparação da II Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); encontrou-se com Che Guevara em Conacri, o guerrilheiro cubano ficou bem impressionado com Cabral, prometeu e concretizou apoios; ciente de que continuam os problemas de negligência, elaborou um documento intitulado Palavras de Ordens Gerais do Secretário-Geral.
A II CONCP realizou-se na Tanzânia, em outubro. Assim estamos chegados a 1966, em janeiro, em Havana, durante a I Conferência de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina, a intervenção de Cabral gera admiração dos participantes, põe em causa o proletariado de índole operária, disseca os fenómenos sociais africanos e revela que o segredo do êxito do que está a acontecer na Guiné-Bissau é a estreita aliança entre uma burguesia consciente do seu poder revolucionário e a massa camponesa que está pronta a quebrar as grilhetas do colonialismo.
Estamos de novo em Conacri em 1966, está reunido o Conselho de Guerra com Amílcar, Luís Cabral e Aristides Pereira e os comandos das frentes. É de novo recriado um diálogo, os líderes políticos conversam com chefes da guerrilha, com Nino e Osvaldo Vieira, Domingos Ramos, Francisco Mendes e Pedro Pires. Discute-se o Exército Nacional Popular que irá ajudar as Forças Armadas na proteção das povoações, mas também são postos em cima da mesa os desempenhos dos comités de tabancas e anunciada a chegada de navios fornecidos pela União Soviética.
Em abril, Amílcar e Osvaldo Vieira estão no Morés, questões disciplinares merecem a atenção dos dois, Amílcar pretende destituir Inocêncio Cani, outro guerrilheiro, de nome Hilário Rodrigues, fora alvo de um processo de inquirição em que se apurou ter vendido armas tomadas ao inimigo no Senegal e na República da Guiné, ia ser destituído de todas as funções.
Temos novamente Cabral em Havana um ano depois, foi assistir ao juramento de bandeira de trinta e um recrutas cabo-verdianos, comandados por Pedro Pires. De novo o líder do PAIGC é recebido por Fidel, ele reforça o apoio com o envio de medicamentos, de 3 camiões acompanhados dos respetivos mecânicos cubanos e de 10 especialistas de morteiros.
No teatro de operações da Guiné, Schulz marcara pontos com as tropas especiais e intensos bombardeamentos, mas não se saía do impasse. Cabral procurou a flexibilidade das suas forças, abandonou algumas bases militares. Temo-lo de novo em Argel, Cabral fez um discurso no Comité de Libertação da Unidade Africana. É neste ano que o PAIGC foi dotado de uma emissora.
E assim se chega nesse ano de 1968 à decisão política de Salazar de substituir Schulz por António Spínola. Vamos entrar no terceiro e último ato da guerra da Guiné.
Cabral e Fidel Castro depois da reunião da Tricontinental, a intervenção pública de Cabral marcou pontos, introduzia uma nota ideológica que se distinguia da cartilha soviética.
(continua)
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Notas do editor:
Vd. post de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)




























